O Tombo de Vivi ✯por Elena Markus

Arte de Pat Brennan


Viviane nunca se preocupara com a sua estranha inclinação para acidentes, mas Liliane, sua irmã gémea, irritava-se e chamava-lhe desastrada. Dizia-lhe sempre que ela prestasse mais atenção ao que fazia, se calhar, sofreria menos imprevistos. Vivi, era assim que lhe chamavam, não se importava. Sempre achara que eram estes imprevistos que transformavam a sua vida nalgo fascinante e merecedora de ser vivida, mas, Lili, tinha uma perspetiva mais circunspecta e temperamental nesta abordagem à vida.

Vivi amava a irmã do fundo do seu coração, via-a como uma mulher de paixões avassaladoras e tempestades impetuosas submetidas a um autocontrolo rigoroso. Uma caixinha de Pandora que Vivi não ousava abrir, mas com a qual contava para a proteger e isso transmitia-lhe uma sensação de segurança que ela de bom grado acolhia e que lhe permitia enfrentar com firmeza situações mais difíceis como aquela que agora se lhes apresentava.

Alguém havia telefonado para a florista, onde trabalhavam, a encomendar uma coroa de flores para entregar numa das mansões ali perto. Era um sítio meio escurinho e mal-arranjado que lhe provocava arrepios sempre que por ali passava sozinha, mas desta vez a Lili estava com ela e por isso desaparecera o receio de cometer algum engano. No entanto, mesmo tocando na campainha e batendo na porta da frente, ninguém atendia. Liliane já havia começado a resmungar pela falta de consideração, Viviane apenas achava que a casa era grande e simplesmente podiam não ter ouvido. Também se arrependeu de manifestar verbalmente tal opinião visto o olhar fulminante da irmã ter indicado que tal afirmação, além de descabida era, igualmente, insultuosa.

Após uma breve troca de palavras sobre o destino da coroa de flores ambas concluíram que, independentemente, de uma querer se livrar da dita e outra querer que lhes pagassem o que lhes era devido, o objetivo era comum. Tinham de entregar a malfadada coroa e estava claro que pela porta da frente não iria ser.

Vivi foi a primeira a aventurar-se pelo carreiro de pedra que conduzia às traseiras da mansão, logo seguida por uma irmã gémea visivelmente contrariada e desconfortável com toda a situação. Ainda não tinham começado a subir os pequenos degraus gastos que se encontravam do lado direito e as levaria à porta traseira quando o sussurro daquilo que lhes parecia um coro de vozes, vindo do fundo de um poço, lhes chamou a atenção. Imediatamente as duas pararam no meio do caminho e os seus olhos procuraram a direção do som. Uns metros mais à frente do sitio onde se encontravam havia uma clareira cinzenta, de ar decrépito e engalanada com folhas e galhos secos espalhados pelo chão, mas não se vislumbrava nenhum poço. Vivi, que transportava a coroa de flores, encostou-a às sebes que contornavam o caminho e deu um passo na direção do som, mas foi parada pela mão da irmã sobre o seu ombro.

- Oi! Tás doida? – perguntou Lili.

- Não. – respondeu vivi virando-se para a irmã – Tenho a certeza que há ali gente, só ia dar uma espreitadela.

- Eu tenho a certeza que há gente ali também – retorquiu a gémea apontando na direção da casa. – Podemos dar uma espreitadela ali primeiro.

- Já demos e ninguém abriu a porta.

- Mas ainda não experimentámos esta porta.

- E para que é que vamos bater àquela porta se as vozes vêm dali?

- Porque ali não há uma casa e aqui há? – revidou Lili.

- Não sejas tonta. E se estiver ali alguém a precisar de ajuda?

- Chamamos os bombeiros.

- Mas para isso alguém tem de lá ir ver, não? – rematou vivi retomando o caminho da clareira.

Lili rebolou os olhos e suspirou. Normalmente, os desastres aconteciam quando a irmã sentia o desejo incontrolável de ajudar alguém que ela imaginava estar em apuros.

- Espera por mim. – Acabou por dizer seguindo-a.

À medida que Vivi se aproximava, o coro de vozes parecia soar mais perto. Não conseguia discernir a linguagem utilizada que mais se assemelhava a ecos trazidos pelo vento, mas vindos de onde? Parou, olhou em seu redor, mas nada.

 - Juro que não consigo perceber de onde vem o som. – disse ela intrigada esperando que a irmã se aproximasse.

- Deve ser o barulho dos galhos das árvores. – Retorquiu Lili. – Nada mais.

Para seu descanso, o som desapareceu. Vivi descansou a palma das mãos nas ancas, permanecia intrigada, mas a irmã devia ter razão.

- Talvez. – Acabou por concordar hesitantemente virando-se para a irmã, que se aproximou dela agora com um ar mais descansado.

- Estás a ver. – Liliane sorriu estendendo-lhe a mão. – Eu disse-te que não havia nada.

Mal tinha tido tempo de terminar a frase quando o coro de vozes se elevou novamente e desta vez bastante mais próximo. Viviane soltou um guincho assustada e ao mesmo tempo deu um passo atrás. O chão abriu-se debaixo dos seus pés e no calor da confusão que se seguiu apenas viu a sua gémea lançar-se para a frente e agarrar-lhe os pulsos com toda a força que conseguia reunir para não a deixar cair. Mas era tarde demais, o desequilíbrio provocado pelo tombo de Vivi arrastou Lili involuntariamente para dentro do buraco.
 
 
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