Ainda te quero ouvir ✯ Por Luciano José de Azevedo

Autor desconhecido


- Ah, Aline, minha deusa:- continua ele, sorrindo, ao atravessarem a avenida. - Acaso não sabes tu que a beleza embriaga?

Ela ri.

- Pára com isso, menino! Eu não sou nenhuma deusa, e deixe de falar desse jeito. Parece até um personagem daqueles livros antigos...

Ele finge não ouvi-la, mas elimina o sotaque lusitano.

- O seu andar é gracioso, este chão em que pisa com seus pés delicados é um chão abençoado, e seus cabelos, complementos divinos da candura de seu rosto, são como provas vivas de um Universo em harmonia.

- Deixe de coisa, seu doido! :- diz ela rindo, e dando um tapinha em seu ombro. - Meus pés são feios, meu cabelo tá sujo e com cheiro de fumaça.

- Pode até ser, mas na essência são divinos, como você.

- Ah, "seu José", você não existe mesmo... Mal me conhece e fica aí, me dizendo essas coisas...

- Mal lhe conheço?

- É, eu sei, você mora na outra rua, nossos pais se conhecem, você me vê voltando do trabalho quase todos os dias... Mas você não me conhece, realmente. Não sabe quem eu sou.

- A admiração que sinto por você não requer um conhecimento profundo de sua pessoa. Afinal, também admiro o Sol poente, embora desconheça o que há em seu âmago.

- Porque insiste em falar assim, Zé? Diz pra mim, eu tenho cara de mulher romântica?

- Não faça pouco de um homem apaixonado! :- continua ele. – Sua beleza me consome, e por isso sofro.

Ela balança a cabeça negativamente, rindo, e diz:

- Tá vendo porque é que te chamam de Zezinho? É porque rima com doidinho... Gente igual a você é capaz de se apaixonar até por uma pedra.

- A mim não interessam as idéias errôneas que possa ter a meu respeito. O importante mesmo é poder ver seus lábios se mexendo, ouvir sua voz massageando meus ouvidos.... Enfim, estar aqui ao seu lado.

- Eu tenho namorado, sabia?

- Mentira! :- grita ele, sorrindo.

- Tá bom, então não tenho! :- diz ela, também rindo. - Não tenho, não é, Zé?

- Não, não tem. Nenhum dos abutres que te cercam está à sua altura, e você sabe disso. A mediocridade é como um pássaro de vôo baixo e pesado.

- É, e o que mais sabe sobre mim? Será que você não é um tarado? Um pervertido que usa a poesia como pele de cordeiro?

- Aline, meu anjo, sou um tarado sim, mas um tarado pela vida, e consequentemente, um excelente observador.

- Aí é que você se engana, meu bem... Nem todo bom observador é um apaixonado pela vida. Aliás, eu acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra.

- Eu me refiro àquela categoria de excelentes observadores à qual eu pertenço, minha musa. Aqueles que vêem o brilho exuberante das galáxias contidos numa minúscula esfera de vidro... Que compreendem as forças da natureza ao verem um inseto preso à teia de uma aranha... Que...

Ela o interrompe:

- Tá bom, desisto, antes mesmo de começar; não vou discutir filosofia com você.

- Compreendo seus temores, mas estou do lado do bem, por isso vivo tranquilo.

- Ai, ai...:- diz ela, suspirando e levando a mão aos cabelos. - Eu só estava te provocando, Zé. Você é um cara estranho, meio antiquado, mas é boa companhia. Quando me chamou pra conversar eu poderia ter negado ou inventado mil desculpas ao longo do caminho pra te dispensar, mas não fiz isso... Estou aqui, ouvindo essas coisas que você diz.

- E por que? :- pergunta ele, com um sorriso maroto.

Ela olha para o chão, com olhar vago, e responde:

- Não sei, deve ser porque sou doida... Tão doida quanto você. Ou então é porque estou carente de alguém que possa me ouvir, de verdade, sem me taxar de chata ou rir da minha cara.

Após dizer isso, olha para ele de soslaio e diz, sorrindo:

- Mas não "viaja", hein, Zé? Não confunda desabafo com declaração de amor.

- Aline, o amor que sinto por ti é involuntário. :- diz ele, com ar teatral, encostando a mão no peito. - O ideal seria vivê-lo, mas se não posso, que remédio, a não ser sofrer por ele?

Ela permanece em silêncio. Sua atenção está voltada para algo que vem logo à frente e parece irritá-la.

Um motoqueiro empina sua moto e passa por eles num instante, fazendo muito barulho.

- Retardado! :- comenta ela, balançando a cabeça, séria. – Tem gente que não mede esforços pra aparecer.

Após alguns instantes, José diz:

- O que é que está te aborrecendo?

- É esse barulho horrível... Odeio quando fazem isso!

- Mas não há mais barulho. A moto já está longe, esqueça-a.

Ela suspira e diz:

- Acho que ando meio doente...

- ??

- É tpm crônica, Zé... Tudo me irrita. - dá uma pausa e continua: - Menos você... Por enquanto. :- completa, rindo.

- Se acaso ficar zangada, minha querida Aline, apenas diga "basta!" e eu lhe deixarei seguir sozinha por estas ruas sinuosas.

- A essas horas da noite eu prefiro andar acompanhada...

- Que assim seja, então. É uma honra poder caminhar ao seu lado.

- Você não se cansa de falar assim, como um ator de teatro?

- Eu não posso e nem quero me dirigir a você usando gírias ou qualquer outro vocabulário tosco. Seria como tomar um gole de vinho nobre num copo de plástico sujo.

- Mas eu também falo gíria e palavrão. Não sou uma menininha doce e muito menos essa "deusa" que passeia pela sua cabeça... Será que enxerga bem?

- Ora essa, se nesta terra de tantos amores e dissabores há aqueles que tratam as pessoas como gado e há aqueles outros tantos que aceitam serem tratados como tais, porque não se poderia optar pelo oposto e considerar alguém como uma divindade? Nenhum de nós é um mero amontoado de ossos, carne e sangue... Somos partículas estelares, seres divinos.

Ela torce o nariz, com um sorriso fraco.

- Vou discordar de você. Tem muita gente neste mundo que não tem nada de divino.

- Aline, até as bactérias são seres celestiais; é uma verdade universal, por absurdo que pareça.

- E bota absurdo nisso! :- completa ela.

Eles ficam em silêncio por um instante apenas, até que ela diz:

- Zé, sabe o que você me faz lembrar? Aquele tal de Don Quixote, que andava pra cima e pra baixo usando armadura e falando de castelos e gigantes...

- Você já leu esse livro?

 
- Não, mas desde criança ouço falar dessa história... Pra ser sincera, nunca conheci ninguém que o tivesse lido, inteiro. Também, pudera, é um livro mais grosso que a bíblia! Se eu tivesse começado a lê-lo quando criança, só terminaria quando meu primeiro bebê nascesse.

Ele ri.

- Que exagero, Aline! Uma boa história nunca é longa, acredite.

- Mas cá pra nós:- comenta ela, com malícia. - Você também nunca leu, hã?

Ele sorri, meio sem jeito e diz:

- Confesso que não, mas já tive em mãos grandes obras de grandes mestres literários... Brasileiros, portugueses e também espanhóis, como o próprio Miguel de Cervantes.

- Quem é esse?

- O autor de Don Quixote! Você acredita que um amigo meu me confessou que achava que esse livro era de autoria de Paulo Coelho?

Aline começa a rir, às gargalhadas.

- E eu achando que era burra...

- Mas me diga, o que a aflige?

- O que me aflige?

- Sim. Não me disse que precisava de alguém que lhe ouvisse? Estou aqui, então diga-me: o que lhe vai na alma?

- Sinceramente, já não sei se quero derramar meus dramas sobre você, Zé... Não ainda. Acho que estou começando a gostar de sua companhia... Não acredito no que vou dizer, mas... pode continuar a falar "daquele jeito".

Ele sorri agradecido e diz:

- Não quero ser presunçoso, mas eu já esperava por isso. Há muita aspereza verbal circulando por aí, como se não bastasse todo o lixo sonoro que esbofeteia nossos tímpanos, dia após dia. Os ouvidos desta cidade clamam por afago.... Inclusive os seus.

- É, acho que tem razão... Pode até ser meio babaca, mas isso me traz mesmo uma certa paz de espírito.

- Não é babaca, é apenas simples, um cantarolar singelo, desprovido de interesse maior que não seja o de tocar a alma de quem o ouve... E neste caso em especial, esse alguém é você.

Ele faz uma pausa e continua, retomando o tom teatral:

- Você, minha estrela da manhã... Menina mulher, sutilmente pueril e sensual, de olha felino, encantador, e lábios carnudos e convidativos... Você que parece desconhecer o poder que tem de provocar um grande rebuliço na cabeça de um homem...

Ela o interrompe, exprimindo um sorriso lisonjeiro, e desconversa:

- Ah, Zé, deixa de onda... Fale sobre outras coisas, agora.

- Modéstia à parte, o meu repertório é vasto... Dirija meu show, minha querida... Escolha um ou mil temas, ao seu bel prazer.

- Tá bom, então quero que fale sobre...:- ela faz uma pausa, sorridente, e erguendo a cabeça com um dedo sobre o queixo, pensativa. - Flores!

- Flores? :- pergunta ele, rindo. - Pedir a um poeta que fale sobre flores é como pedir a um pescador para que fale sobre o mar.

Ela ri, desta vez sem um motivo aparente, deixando-o curioso.

- Você é o primeiro cara que conheço que não se sente menos homem por mostrar-se sensível.

- E porque ri?

- Porque por um instante imaginei como seria ver um cara que conheço e que faz o tipo machão tentando bancar o poeta e falando justamente sobre flores.

- Eu creio que todos temos habilidades infinitas, :- diz ele, sério - adormecidas em lugares ainda obscuros de nossas mentes, com potencial para fazer com que cada um de nós seja um minúsculo depositário de todo o conhecimento e habilidade adquiridos durante toda a história da humanidade até os dia de hoje.

Ela ri outra vez.

- Você não está querendo me dizer que o Tonhão também poderia escrever poesias?

- Não conheço esse seu amigo, mas aposto que sim, da mesma forma que uma bailarina poderia pilotar um submarino de guerra.

- Você é bastante otimista.

- E porque não ser? :- rebate ele.

Nesse momento, eles avistam dois jovens vindo em sua direção, e se comportando de maneira estranha. Ao aproximarem-se, percebe-se que estão alterados, e com olhares apreensivos e desconfiados remexem o conteúdo de um pacote de papel que carregam, com  mãos trêmulas.

Aline e José fingem não notá-los e prosseguem.

- Pode começar. :- diz ela, então.

- Se é o que quer vou falar sobre flores, mas não espere por um manual de botânica, pois confesso que na verdade sou um leigo no assunto.

- Não me enrole, Zé, você é um poeta. E não precisa fazer rimas, apenas fale como fez até agora.

 

Ele abre os  braços e as palmas das mãos de maneira engraçada e começa, pronunciando as palavras devagar:

- Flores, flores, flores... Flores que crescem nas campinas, abençoadas por céus sorridentes, flores que colorem os jardins mais diversos, que com suas cores e odores nos fazem sonhar, sorrir e lembrar, que nos enchem de alegria, mas também melancolia, como quando as oferecemos a alguém que mais tarde nos decepciona, e então nos vemos obrigados, com amargura, a recordar... Flores maravilhosas e desconhecidas, do começo dos tempos, que não se permitiram registrar pelos pretensos humanos, flores que reinavam exuberantes, abundantes, como os próprios dinossauros, flores ancestrais, das quais descendem as atuais: tulipas, violetas, rosas, margaridas, girassóis, jasmins e outras tais... Flores, extraordinários vegetais, com tal poder místico de sedução sobre os pobres mortais, que já testemunharam, com toda sua beleza selvagem, movimentos e doutrinas inspiradas em seu nome. Flo...

Ela o interrompe outra vez, tímida, temendo que ele se aborrecesse com sua intromissão.

- Zé, agora fale sobre sonhos.

Ele não se incomoda nem um pouco e sorrindo, começa:

- Sonhos... De que são feitos afinal? Tão distantes e sempre tão presentes... Um sonho pode ser árduo para alguns, inatingível para outros e impensável para outros tantos, mas de qualquer modo, sempre necessário a todos, mesmo os que nele não acreditam... Sonhos infantis, sonhos simples, mesquinhos, torpes, mirabolantes, fantásticos, utópicos, enfim, todos eles são sonhos, preenchendo tentadores, os desertos da alma humana.... Errados são aqueles que subestimam os sonhos, pois graças àqueles mais loucos é que nós, como humanidade, avançamos.... Há também os que sonham demais e tiram os dois pés do chão, mas quando despencam lá, das estupendas alturas, caem direto num segundo, nos braços indiferentes da desilusão.... Quão insuportável, porém, seria a vida, se não pudéssemos projetar nossos desejos mais íntimos na acolhedora tela da esperança...

- Sobre a desilusão. :- pede ela, em voz baixa.

- Desilusão, desilusões... Tantas são elas... Desilusões amorosas, que machucam tantos corações.... Desiludidos, os anjos caídos só enxergam então, os céus tristonhos de nuvens cinzentas.... Desiludidos, os heróis foram vencidos, ao abandonarem a luta, por perderem a fé... A desilusão é uma criatura sádica, que nos dá um tremendo choque e depois suga nossas forças. Ela é...

- Sobre o futuro... :- pede Aline, interrompendo-o novamente.

- O futuro, esse amanhã que nunca chega, que nos enche de esperanças e temores mil, que por definição sabemos: é algo que jamais alcançaremos, mas para o qual toda uma vida nos preparamos, com ou sem aflição. Futuro... Um campo vasto de promessas sem fim, grande palco de projetos audaciosos, de toda espécie, terreno fértil onde se semeiam ideias das mais tresloucadas, nascidas nas cabeças de nobres e vagabundos, de artistas, cientistas, engenheiros, arquitetos, de descontentes, de solitários, de multidões inquietas, de líderes audazes... Futuro.... Aguardado por muitos, como prova do sucesso, a florada das sementes que hoje se plantam.... Temido também por muitos, por simbolizar a morada do imprevisível, do que ainda não veio, e por isso mesmo angustiante, assustadoramente indiferente e vil.... Ameaçador por um lado, brilhantemente promissor em seu extremo oposto, por ser também o lar das sedutoras quimeras, o reino encantado dos ideais alcançados.... Das sociedades perfeitas, com suas cidades cintilantes... O reino da justiça infalível, para todos, do amor sem fronteiras, da vida plena, para sempre distante da opressão, da miséria, da fome, da dor...

Nesse momento Aline toca em seu ombro, com os olhos voltados para o céu, e inspirada, diz:

- Zé, agora fale sobre o Universo.

- Vastidão vasta, vastíssima... Que colocação ridícula! Mas como exprimir o inexprimível? Para um único indivíduo, um bairro é grande, uma cidade é de uma imensão absurda, um país é um exagero de gigantesco, os continentes são vastidões extraordinárias, tremendas; o planeta é um assombroso globo de proporções estonteantes, aparentemente sem fim, e no entanto, toda essa sua inacreditável grandeza figura apenas como um minúsculo pontinho, quase invisível, flutuando feito um grãozinho de poeira insignificante numa das pontas de uma galáxia, esta que por sua vez poderia já ser o próprio Universo, tamanha a sua magnitude, mas que, dadas as proporções, também não passa de uma tosca fagulha suspensa num negrume avassalador e humanamente impossível de ser compreendido em toda a sua totalidade... Não se pode falar sobre o Universo verdadeiramente, pois não o conhecemos absolutamente... Tudo o que sabemos sobre ele é tão insignificante quanto nós mesmos... É irrisório, é uma lasca, um quase nada sobre o verdadeiro Todo... Mas falemos então do que achamos que conhecemos, façamos dessa imensurável vastidão abismal um lugar para onde possamos transferir toda nossa pretensão fantasiosa e quem sabe, assim, termos um pouco de amparo consolo para nossa patética condição de insignificância... Vamos a elas, as viagens ultra longínquas e fantásticas através do cosmo, que nos fazem ver as monstruosidades estelares em todo o seu esplendor se delas nos aproximarmos, mas que também nos permite ainda assim contemplá-las com admiração juvenil, como estamos fazendo agora, vendo apenas pontinhos fixos e brilhantes no céu, que nos enchem de tranquilidade e esperança... Cometas, quasares, pulsares, galáxias e mais galáxias aglutinadas, desenhando pitorescas figuras no vácuo sideral; meteoritos, asteróides, buracos negros, buracos brancos, estrelas que nascem, estrelas que morrem, planetas dantescos, com mares de lava, planetas desertos, escuros, sombrios, gelados, ensolarados, verdejantes, habitados, estranhos, paradisíacos, horripilantes, planetas viventes, pensantes, planetas espirituais, paralelos, diferentes... Luas e mais luas, todas fiéis às suas órbitas, humildes, pacientes, testemunhas tranquilas de acontecimentos diversos... E elas, as catástrofes siderais, irradiadoras de estupendos fenômenos luminosos, embriagantemente belos e caóticos, encantadores e paradoxais, capazes de realizar devastações impensáveis... Cometas... Cometas que rasgam nossos céus noturnos em espaços de tempo que podem durar muitas vidas... Eclipses, curiosos eclipses, que nos lançam nas sombras e nos mostram quem somos, criaturas patéticas fugindo dos raios de luz que sondariam nossas almas... Universo, o que você é, afinal?

Qual o seu propósito, a que veio e para que? O que havia antes de ti? O que há além? Tu és único? Faz parte, também, de um grupo maior? Não, não me diga que é também um grão, um grãozinho irrisório flutuando em algum cantinho qualquer, feito um cisco? Faço-lhe muitas perguntas, mas por favor, não responda a todas elas assim, de pronto... Talvez eu não queira mesmo que responda a nenhuma delas... Não; responda então, se vontade tiver, a todos os zilhões de seres inteligentes que abriga, até o infinito... Todos eles e ao mesmo tempo, pois ninguém suportaria, sozinho, tomar consciência de tal revelação.

Desta vez ela sabe que não o interromperá, pois ele fica em silêncio por um tempo considerável, demonstrando haver terminado.

- Muito bem, "seu José". :- diz ela de repente, um pouco nervosa.

- Você é mesmo eclético... e um pouco chato também. (ri, ri, ri);  tô brincando, eu amei. Então tá, vou satisfazer o seu desejo, agora: fale sobre o que sente por mim...

José, até então aéreo, de repente se recompõe, com um brilho diferente nos olhos, feliz da vida.

Ele começa:

- Aline, adorável Aline, que outrora talvez houvesse me julgado um objeto açucarado e pegajoso, tal qual um chiclete que lhe grudasse na sola do sapato, inconveniente e desagradável, mas que agora me permite sobre sua pessoa falar, me deixando livre para exprimir o que sinto, o que carrego sôfrego neste coração pesado, desejoso de viver o amor, mas o seu amor e não outro... Ah, Aline, quero enfrentar as agruras da vida ao teu lado, cair, chorar, me levantar e sorrir, junto a ti, sempre... Sei que teu corpo, belo e frágil corpo, está preso a esta terra, como o meu, mas peço-lhe, Aline, não me censure se eu vez ou outra insistir em te elevar nas alturas, feito uma imagem divina... Pode gritar, indignada, esbravejar contra tudo e todos, zombar da arrogância masculina e de todas as normas estúpidas de conduta, enfim, faça o que quiser para se desvencilhar de todas as coisas que lhe parecerem ridículas e pré estabelecidas, mas não me peça para não ver, em seus lábios arqueados, um sorriso doce e angelical, ou em suas mãos tenazes, a delicadeza de seus dedos finos e a maciez de sua pele viçosa. Esqueça o tempo, deixe que passe e leve devagar, muitos anos de nossas vidas, pois não é apenas teu nariz, teus olhos e tuas pernas que amo, mas sobretudo algo que parece ser inerente a ti, de um modo inexplicável...

Aline até então prestara atenção a cada uma das palavras dele, mas um sentimento gradual de afeição surgira em seu ser e ia ganhando espaço, com força crescente, deixando-a um pouco distraída, por ver-se perdida de repente em conjecturas a respeito do que pretendia fazer.

Surpresa, ela então experimentava em si o nascimento de um desejo. O simples desejo de beijá-lo.

Beijar José... Por que não? Estava longe de ser o seu ideal de homem, mas... Algo nele, o seu jeito, as coisas que dizia, ainda que confusas e engraçadas, o modo como se dirigia a ela, tinham de algum modo patético conseguido trazer um certo brilho àquele pedaço de noite.

Ela toma finalmente a decisão e se prepara para interrompê-lo pela milésima vez, mal esperando para ver qual seria a reação do rapaz ao saber o motivo desta sua nova intromissão.

Espera paciente pelo término de uma frase e então o chama:

- Zé...

Nesse momento, porém, algo absolutamente inesperado ocorre.

Um homem surge de repente de uma esquina e passa correndo em desespero, ao lado de José. Correndo atrás dele, bem mais distante, um outro homem efetua três disparos... Nenhum deles acerta aquele que corre, mas o segundo disparo atinge José em cheio na cabeça, lançando-o ao chão brutalmente, já sem vida.

A grotesca e repentina visão de seu corpo no chão deixa Aline em estado de choque, incrédula. Não é possível que ali, estirado na calçada, está José... O "Zé", que ainda há pouco a deixara admira da, que mexera com seus sentimentos e estava prestes a ganhar um longo beijo na boca... Sua face, num segundo, assumira a expressão da morte. Morte horrível, estúpida, sem nexo.

Ela grita em desespero, aos prantos, enquanto toca o rosto ensanguentado do rapaz, ajoelhada diante dele, estarrecida.

Tudo se passa em instantes... O perseguidor passa por eles, veloz, mas desiste rápido, pois o outro já sumira em direção à avenida, certamente repleta de potenciais testemunhas.

Aline dirige sua atenção a ele, com ódio visceral.

Que espécie de figura asquerosa, imunda, bestial, poderia ter sido capaz de arrancar a vida de José daquela maneira? Que animal seria esse que interrompera suas palavras com um gesto tão brutal?

Um tiro! Um tiro o interrompera... E pensar que seria um beijo!

O assassino, de fisionomia nada simpática, aproxima-se e a encara, com um meio sorriso imbecil, levando um dedo à boca como a pedir (ordenar) para que ficasse em silêncio, sem ao menos olhar para o corpo inerte no chão.

Ele abandona a cena tranquilamente, com a arma ainda em punho.

Ela está abobalhada com tudo aquilo. Daria tudo para ter de volta a agradável companhia de José. E daria tudo para ter de volta o "seu instante". Tudo mesmo.

- ... Zé? ...!!

O homem já está prestes a dobrar uma esquina... Aline, num gesto louco, levanta-se rapidamente e vai atrás dele, aos berros.

- Õ animal!

O homem se volta, parecendo surpreso.

- Seu desgraçado, não viu o que fez? Seu lixo!

Ele esboça um sorriso cínico.

- Pega leve, mocinha, ou te apago agora mesmo.

Ela continua se aproximando, sem medo, e o provoca:

- Então me faça esse favor, seu merda, porque eu marquei a sua cara e não vou deixar isso passar em branco! Vou fazer o que puder pra ferrar com essa sua vida inútil!

O homem parece mesmo surpreso. Aquela maluca estava praticamente pedindo para morrer!

- Vai pra casa, "fia", ou não vai ter outra chance... Não matei seu pai nem sua mãe, então vê se me esquece! :- responde ele procurando ignorá-la, e enxotando-a com gestos.

Ela chega ainda mais perto e o desafia:

- O que foi, machão? Não honra as calças que veste? Tá com medo de mim? Será que é um bundão?

O homem finalmente se irrita e diz, encostando o cano do revólver em sua testa:

- Então "cê tá querendo tomá um teco", né, vadia?

Ela assume um semblante tranquilo e fecha os olhos, devagar.

O homem não crê no que está acontecendo e hesita, porém sem tirar o dedo do gatilho.

- "Cê" vai me entregar? :- ele pergunta.

Ela permanece tranquila e responde, sem se alterar:

- Eu tô achando que você não é tudo o que sua feiúra aparenta, "boneca"... No fundo não passa de um mela cueca!

Após dizer isso, ela faz um movimento brusco, tentando assustá-lo, e obtém sucesso.

Ele se enfeza de vez e dispara, alvejando-a em seguida mais duas vezes em outras partes vitais de seu corpo caído, agora apressado em sair do local.

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Ela se levanta e fica em pé com extrema facilidade e leveza, sem se importar nem um pouco com sua réplica de carne e osso prostrada ali no chão.

Aproxima-se com graça do corpo etéreo de José, que a espera, feliz.

Eles se dão as mãos. Seus corpos agora, embora feitos de energia, reproduzem a mesma aparência e sensações táteis.

- Você está ótimo! :- diz ela.

- Não mais que você. :- responde ele. - Você me ouviu?

- Sim, senti que estava por perto... Foi aí que me decidi. Será que isso é errado?

- Como posso saber? Também sou um recém-chegado. - Não creio que haja o que temer; somos do bem, é o que conta. - Só lamento o sofrimento daqueles que nos são queridos.

- Eu só queria continuar te ouvindo. :- diz ela, sorrindo, com um olhar inocente.

- Sim, mas você me chamou um pouco antes do "fato". O que é?

- Um beijo.

- Como?

- Eu queria lhe dar um beijo, Zé. Era isso.

- Era? Não quer mais? :- pergunta ele, encarando-a.

- Claro que quero!

Os dois lábios se entrelaçam num beijo longo e furioso, como se de carne fossem.

Em dado momento os dois como que caem em si e se entreolham, estupefatos e maravilhados perante o inusitado de sua recentíssima condição.

Retomam então a caminhada, de mãos dadas e em silêncio.

- 0nde foi que paramos? :- pergunta ela de repente, como se não soubesse.

- Eu falava sobre tudo o que sinto por você...

- Ah, sim, sou "toda ouvidos", Zé... Nós temos muito tempo, agora.

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